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A Estrela que Nunca Vai se Apagar

"(...) Esther não era incomum porque estava doente, mas porque era a Esther; e ela não existiu para que o restante de nós pudesse aprender Lições Importantes de Vida. O significado da vida dela - como o de qualquer outra - é uma questão enlouquecedoramente ambígua e envolta em incerteza."


Autores: Esther Earl com Lori e Wayne Earl
Editora: Instrínseca

   Esther Earl era uma menina que foi diagnosticada com câncer de tireóide aos 12 anos e morreu aos 16. Mas esse é um resumo muito simplório e que, ao meu ver, não descreve em nada a pessoa que me foi apresentada neste livro. Desde as primeiras páginas tudo que pude sentir foi muito carinho, muita alegria e, principalmente, muita vida.

    O livro reúne depoimentos de pessoas amigas, familiares e profissionais que trabalharam com Esther durante sua luta. Em todos eles conseguimos sentir uma opinião unânime: Esther era a pessoa com mais vida, força de vontade, coragem e amor que eles conheceram. Ela tinha o dom de fazer uma pessoa se sentir a mais importante para ela, de realmente sentar, ouvir e tentar ajudar quem viesse a ela.

    Não vou com esse livro dizer que conheço ou sinto falta dela, porque não é verdade. Infelizmente não conheci e nem sabia quem Esther era até o lançamento deste livro, mas posso dizer que gostaria de tê-la conhecido. Assisti alguns videos de seu canal (que ainda está no ar até hoje) e os achei super divertidos e cheio de animação. Não tive a sensação de que ela tinha um problema ou sentia tanta falta de ar e desconforto com diz em alguns momentos no livro. 

    Uma coisa que eu não esperava nesse livro é que Esther não é descrita como uma pessoas sem erros, nem pouparam o leitor de seus momentos sombrios. Em vários momentos podemos ver uma Esther dividida: de um lado uma pessoa de coração aberto à fé e esperançosa sobre o que Deus reservava à ela, e de outro uma menina assustada, que não queria morrer e não entendia por que estava passando por aquilo tudo. 

    Eu acho que a grande lição que esse livro deixa não é a superação nem a luta contra o câncer, mas o modo de ser de uma pessoa que seria maravilhosa com câncer ou sem ele. Esther era uma pessoa preocupada em fazer a diferença no mundo e batalhou por isso mesmo tendo vários problemas pessoais e limitações físicas. Se preocupava e amparava vários amigos online, que sequer sabiam que estava doente.

    Assistindo seus vídeos e lendo alguns rascunhos de histórias que ela começou e foram publicados no livro eu senti que ela seria conhecida e famosa no futuro. Ela tinha muito potencial. Mas esse potencial não foi desperdiçado, pois ela mudou e fez a diferença na vida de inúmeras pessoas, algumas que nem a conheciam, e acredito que continue fazendo essa mudança até hoje e ainda fará por muito tempo.

    Seus pais criaram a fundação This Star Won't Go Out, onde se encontram várias informações sobre Esther e onde você pode fazer doações, que servem para ajudar famílias carentes a arcarem com o tratamento e despesas financeiras referentes ao tratamento de câncer infantil, como viagens, pagamentos de hipotecas, etc.

    De todas as biografias que li esse mês, essa foi a que me deu mais esperança e confiança na humanidade, e agradeço à Esther por ter sido assim e aos seus pais por terem tido a coragem de enfrentar o luto e criar essa excelente publicação para que possamos amar e ter esperança no próximo. Espero que todos possam ter essa sensação maravilhosa que tive lendo esse livro.

Ps: Esse livro faz parte do Desafio Literário Skoob 2014,
referente ao mês de Maio

Fuga do Campo 14


Autor: Blaine Harden
Editora: Instrínseca

   Aos 4 anos, Shin Dong-hyuk lembra de ter visto uma execução pública. Essa foi só uma prévia do que viria a ser uma coisa normal. Filho de prisioneiros do campo 14, nascido e criado lá, Shin não tem acesso à educação, saúde ou condições adequadas de moradia. O que ele tem de sobra é fome, frio e abusos físicos e psicológicos. Criado para não confiar em ninguém, delatar qualquer um e pagar pelo pecado de seus ancestrais, Shin leva uma vida que, para nós, é inimaginável.

   Sua rotina quando criança era: passar o fome o dia todo, comendo porções irrisórias de repolho cozinho e milho, e quando chegou a uma certa idade, ir para a escola. Mas escola aqui quer dizer um centro onde as crianças são educadas com as 10 regras do campo, e onde devem aprender a sempre obedecer aos professores e guardas, podendo morrer se não o fizerem.

    As crianças já ajudam em algumas coisas no trabalho do campo, mas no começo da adolescência é que o mais pesado começa, levando até a privação de comida e surras se metas não forem atingidas. Doze a quinze horas de trabalho forçado em minas de carvão, fábricas e fazendas é o que conhecem como vida. Mas em algum momento isso muda, e tudo o que Shin pensa que sabe, se transforma.

    Conseguindo o que era dado como impossível, Shin foge do campo onde nenhum outro homem (que se tenha conhecimento) fugiu, mas até hoje carrega as marcas físicas e mentais dos horrores que sofreu lá dentro. O livro carrega essas marcas e nos faz revelações tenebrosas de seu passado. Muitos trechos me fizeram refletir até que ponto a humanidade de uma pessoa pode existir em certas circunstâncias, e o quão baixo (para os nossos parâmetros) um ser humano pode chegar para sobreviver.

    O livro é escrito por Blaine Harden, um jornalista que conduziu várias entrevistas com Shin e outras testemunhas do campos, ex-guardas, ex-moradores da Coréia, presos de outros campos com uma segurança menor, que foram soltos e conseguiram fugir da Coréia do Norte, apurando vários detalhes que ele deu sobre sua vida. Alguns desses depoimentos externos são citados no livro, assim como livros que o autor consultou e estão relacionados nas notas no final.

    Fico muito triste por saber que existem esses campos na atualidade, e que essas pessoas são forçadas a passar por isso e considerar isso uma vida normal. O pior é que, segundo o livro, não é só o povo dos campos que sofre, mas a população da Coréia do Norte inteira passa fome e sofre para sobreviver. Mesmo Shin, que conseguiu se livrar disso tudo, em alguns aspectos não consegue levar uma vida normal. Me pergunto se as mudanças que sofreu poderiam algum dia ser revertidas e preciso ter a esperança que sim.

   Para maiores informações, visitem essa página da Intrínseca, que contém detalhes sobre um documentário filmado sobre a vida de Shin (que não assisti ainda), as dez leis do campo e mais algumas coisas relacionadas à sua vida. 

Ps: Esse livro faz parte do Desafio Literário Skoob 2014,

referente ao mês de Maio

Doze Anos de Escravidão

"Posso falar sobre a escravidão apenas na medida em que foi por mim observada - apenas na medida em que a conheci e vivenciei em minha própria pessoa. Meu objetivo é dar uma declaração simples e verdadeira dos fatos: repetir a história de minha vida, sem exageros, deixando para outros determinarem se as páginas da ficção apresentam um retrato de uma maldade mais cruel ou de uma servidão mais severa."


Autor: Solomon Northup
Editora: Penguin Companhia

   Solomon é filho de um ex-escravo, que assumiu o sobrenome de seu último senhor, Northup. Nasceu em 1808 e foi educado de forma superior às crianças de sua época, como ele diz. Seu pai, posteriormente à escravidão, tinha uma pequena fazenda, que lhe garantia o direito ao voto. Trabalhava na agricultura e tinha paixão por violino. Acabou se casando e tendo três filhos. Em 1841 aceitou uma oferta de emprego que o levou a ser enganado, sequestrado e submetido à escravidão por doze anos. 

   O autor tinha uma vida confortável com sua família e de certa forma não se preocupava com a possibilidade de ser escravizado, uma vez que nasceu livre. Entretanto, confiou em dois homens que lhe ofereceram um emprego como violinista, e que ajudaria a família por um bom tempo. Sendo levado à outro estado e drogado, ele se viu preso em uma casa onde se traficava escravos, onde apanhou e foi enviado ao Sul, onde a escravidão era mais praticada.

    Contando sua posição de homem livre, Solomon foi ensinado através de surras que nunca mais deveria revelar essa informação, sendo ameaçado de morte. Ele desconhecia essa lei na época, mas sequestro e venda de homens livres como escravos era proibido. Depois de um período em cativeiro, se alimentando mal e apanhando, ele foi vendido para uma fazenda onde conseguiu se recuperar e até fazer amizade com seu senhor e alguns outros escravos.

   Infelizmente, ele foi vendido novamente e passou por vários problemas: trabalho excessivo, tortura (chibatadas e ameaças de morte), fome, falta de vestimenta apropriada e o mais importante: falta de liberdade. Seu coração doía permanentemente com a distância e a falta de informações sobre sua família. Sequer sabia se eles estavam conscientes de que ele tinha sido escravizado. 

    O livro relata o sistema de Escravidão da época, incluindo desde o funcionamento de colheita de algodão e fabricação de açúcar até formas de tortura física e psicológica que eram usadas nos escravos para "motivá-los" a aumentar a produção. Apesar de todo o sofrimento pelo que passou, Solomon ainda conseguia aproveitar pequenos momentos de prazer: conversar com outros escravos, tocar violino nas redondezas, entre outras coisas.

    É uma história muito sofrida mas que felizmente terminou em sua soltura em 1853 e na publicação deste livro. É interessante observar algumas questões sociais da época também, como a necessidade de se ter uma propriedade para se poder votar e a impossibilidade de negros poderem testemunhar ou abrir processos. Graças ao relato quase técnico do autor, esse livro poderia ser incluído como material em sala de aula. 

    Na introdução e no posfácio também constam informações sobre a vida que o autor levou pós-libertação (concluindo em uma morte desconhecida, tanto em causa quanto em local/data) e sobre o filme (que não assisti ainda, mas pretendo em alguma data breve). É uma grande lição de superação e trago a esperança que as pessoas percebam que não era uma situação injusta com ele, por ter sido escravizado injustamente, mas com todos os negros que foram escravizados e que não tinham nem a esperança de uma possível libertação.

Ps: Esse livro faz parte do Desafio Literário Skoob 2014,

referente ao mês de Maio

Vida após a morte

"Quero fazer do mundo um lugar mais mágico. Dar à magia uma forma que as pessoas apreciem e que possa mudar suas vidas. Criar uma arte que faça com que as pessoas queiram sempre rejeitar o mundo prosaico e medíocre que as cerca. Minhas ferramentas podem ser o tarô, o trabalho com grupos de energização ou a fotografia, mas meu objetivo é compartilhar com as pessoas toda a maravilha e a beleza que descobri enquanto fiquei trancafiado em uma cela por quase vinte anos".


Autor: Damien Echols
Editora: Intrínseca

   Aos 18 anos, Damien e dois amigos foram acusados pelo assassinato de três meninos de 8 anos em West Memphis, no Arkansas. No entanto, enquanto seus amigos tiveram como pena a prisão perpétua, Damien foi para o Corredor da Morte, esperar por sua execução. O que diferencia seu caso de outros milhares de presos, é que o julgamento foi feito com vários falsos testemunhos, faltas de provas e pressão popular, e segundo tudo consta, passou 18 anos injustamente encarcerado.

    Através do documentário Paradise Lost: the Child Murders at Robin Hood Hills, de 1996, seu caso veio à público, e ganhou apoio de várias celebridades. Em 2011, Damien e seus amigos finalmente foram libertados. O autor então conta nesse livro como foi sua vida pré-prisão e como passou esses 18 anos lutando por sua libertação. 

"Ouvir as cigarras é como ter o coração esfaqueado por lâminas de gelo. Elas me lembram que a vida continuou para o mundo enquanto fiquei isolado em uma caixa-forte de concreto. Em muitas noites, fui acordado pela sensação de ratos caminhando sobre meu corpo, mas nunca ouvi o canto de verão das cigarras. A última vez que o ouvi, ainda não tinha vinte anos."

   Comprei essa biografia na Bienal do Rio, ano passado, e não esperava que fosse tão pesada. Esperava que fosse triste, pois uma enorme injustiça foi feita e o autor passou anos sem saber se morreria por algo que não fez ou se algum dia respiraria ar puro novamente. Entretanto, a vida de Damien Echols foi muito pesada desde o começo.

    Filho de uma família pobre, Damien passou anos na miséria, algumas vezes literalmente passando fome, além de ter sofrido maus tratos e ter sido vítima de vários preconceitos, entre eles na adolescência, quando se achou na música metal e no visual que hoje chamamos de gótico. Morar numa cidade pequena e limitada com um visual diferente do normal não deve ter sido uma experiência feliz.

    O livro contém vários trechos que ele conseguiu escrever em seus anos preso, e oscilam entre depressão e uma esperança enorme. Dentro da prisão, ele estudou e praticou religiões diferentes, e teve provas de amor, compaixão e crueldade humana. Tudo isso contribuiu para que ele mantivesse sua sanidade e esperasse que as coisas pudessem melhorar. Também traz algumas fotos desse período e pós libertação.

"Quase todas as vezes que dou uma entrevista, me perguntam do que mais sinto falta. Quando fazem isso, cem coisas passam por minha mente e as lembranças em causam aquela sensação de queda livre na boca do estômago. (...)
No fim, não é das frutas que mais sinto falta, mas, se você juntasse todas as privações, o resultado final seria algo assim: sinto falta de ser tratado como um ser humano."

    A descrição da justiça local e das prisões em que esteve preso são horripilantes e amedrontadoras. Como aconteceu com ele, poderia ter acontecido com qualquer um, e provavelmente acontece muito por ai. Não foi o primeiro caso de prisão injusta que já ouvi e infelizmente não deve ser o último. A história dele também é contada através de três documentários (Paradise Lost 1, 2 e 3) e em seu site, damienechols.com.

    Damien teve sorte, pois tiveram o interesse de filmar esses documentários, e foram eles que tornaram seu caso conhecido e facilitaram sua libertação. Mesmo assim, foi um processo demorado e doloroso, cheio de falhas da defesa e apatia dos advogados, que sem a pressão e ajuda de celebridades e amigos do autor, não seria possível. Provavelmente sem eles o autor estaria morto hoje em dia e sua história enterrada.

    Foi um livro que mexeu muito comigo, e até agora não sei se o que escrevo aqui consegue refletir o quanto. É triste saber que uma pessoa inocente possa passar por tudo que ele passou, ao mesmo tempo que é um incentivo perceber como um ser humano pode sair disso são e pronto para viver os anos que ainda tem pela frente. É uma biografia forte e deixo aqui as palavras do próprio autor sobre a sua leitura:

"Fico aborrecido de imaginar as pessoas lendo minhas palavras por curiosidade mórbida. Quero que leiam o que escrevo porque isto tem um significado para elas - seja por fazê-las rir ou por lembrá-las de coisas esquecidas que em algum momento tiveram importância para elas, ou simplesmente por comovê-las de algum modo. (...)
Se alguém começar a ler porque deseja ver a vida a partir de uma perspectiva diferente, ficarei satisfeito. Se lerem para saber como é a vida pelo meu ponto de vista, fico feliz. São os sanguessugas que me deixam doente e incomodado - os que não dão a mínima para mim e só se interessam por coisas como prisioneiros no Corredor da Morte."

Ps: Esse livro faz parte do Desafio Literário Skoob 2014,

referente ao mês de Maio

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